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Lançamento do Livro da Maria João

Apresentação

 (fotos)

APRESENTAÇÃO DA OBRA, POR MESTRE FERNANDO SALES LOPES

Quero começar por agradecer à Fátima Santos Ferreira o honroso convite que me formulou para fazer a apresentação do livro de cozinha da sua irmã Maria João.
Somos amigos há longos anos. Conhecemo-nos bem. A Fátima sabia que este convite, por variadas razões, era irrecusável para mim. E certamente a resposta do sim, seguida do quando e onde, seria a esperada.
Tenho-me dedicado há muitos anos às coisas de Macau, à literatura, à história, e às questões relacionadas com a identidade. Nelas incluo as que têm como base o estudo da comida macaense, e o seu significado identitário.
Conheci a Maria João através do seu primeiro livro – Tanto Ancuza Dóci! -, que a Fátima me ofereceu, sabendo estar a dar-me um presente que, para mim, era muito, mesmo muito, valioso. E que serviu, também, como uma das fontes para o trabalho académico que, então, desenvolvia.
Mas eu não estou aqui para falar de mim, nem, perdoa-me Fátima, de ti. Mas sim da Maria João, e da sua obra.
Mandam as regras que nestas ocasiões mesmo quando se fala de quem é conhecido da maior parte dos presentes, se faça uma pequena nota biográfica do autor, e é por aí que começamos:
A Maria João nasceu em Macau em 1950. Em 1966, com 16 anos, partiu para Lisboa onde continuou os seus estudos, constituiu família e ainda trabalha. É a bibliotecária do Museu Nacional de História Natural.
É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Inglês e Alemão.
Há 10 anos, fez uma pós-graduação em Ciências Documentais, e no presente prepara o seu mestrado numa universidade inglesa.
Feitas as apresentações queria referir-me, de passagem, ao livro que anteriormente nomeei, não só porque, como diria La Palisse, não há segundo sem o primeiro (e esperamos, todos, que venha em breve um terceiro!), como, e isso é mais importante, pelo seu pioneirismo, relativamente à abordagem à cozinha de Macau.
Para esse livro Tánto Ancuza Dóci!! (1993) - uma compilação do receituário dos 19 doces citado por Adé no poema Dóci papiaçám di Macau, acrescentados de outros tantos de um outro poema que o tio escreveu propositadamente para a sobrinha, a que chamou Más petisquèra di Macau, Adé, já nas vésperas da sua despedida, depois de ver as provas do livro escreveu, em jeito de dedicatória:

Querida Maria João: Está óptimo.
É só corrigir as pequenas gralhas.
Tu e eu vamos ficar ligados à história.
Antecipados parabéns!
Beijinhos do
Tio Adé
17-3-1993

Na verdade, este seu pequeno e despretensioso trabalho é essencial e importantíssimo.
Para além do desvendar a alquimia daquelas palavras, aparentemente esquisitas, com que Adé embelezou os seus poemas, é importante porque parte do texto literário para a receita, deixando abertas as portas para o investigador social reflectir sobre a importância e significado de um texto, cuja repetição de memórias aponta para a reafirmação da identidade.
Mas importante, também, porque a autora, não teria, certamente, chegado até aqui – à obra que hoje lançamos - sem aquele primeiro passo, que a “empurrou” para o cumprimento de uma missão que lhe fora herdada como mulher transmissora da sua cultura para os vindouros.
Porque, o homem pode cozinhar, mas os verdadeiros segredos – os da própria família – estão nos doces que ela, mulher, faz, ou supervisiona, guardando as receitas, com os apontamentos da diferença – a sua marca pessoal – e que deverão ser passadas à sua sucessora.
A comida da subsistência, de tacho,  pode sair das mãos do homem, mas os “alimentos” da festa, do encontro de famílias, da recepção dos amigos, dos momentos bons da vida, nas mensagens de saudade, com assinatura de amor, esses são doces, esses são com as mulheres. Essas são obra das guardiãs das memórias.
A Maria João lança, neste momento, com outro fôlego, o seu segundo livro de cozinha macaense, este “O Meu Livro de Cozinha”, fruto de um hobby – como ela chama a esta sua vocação culinária.
Culinária que, conforme Maria João afirma lhe permite “fazer uma conexão com as suas raízes e porque justifica muitas das reuniões de amigos e familiares, tentando sempre reviver momentos já vividos que deixaram muitas saudades.
Há amigos que colaboram, oferecendo receitas.” – diz, acrescentando:
- “ Outros esclarecem as proporções dos ingredientes. Outros ainda se oferecem como cobaias.”
E conclui: - “Assim, à roda de uma mesa, se partilham momentos lindos de saudade e amizade.”
Há neste seu discurso, palavras-chave. Palavras bem conhecidas de todos, porque usadas, pelas comunidades macaenses espalhadas pelo mundo, e que estão bem presentes quando falam e pensam na cozinha de Macau.
 Palavras como “as minhas raízes”, “reviver momentos já vividos”, “saudades”, e “amizade”.
E, já agora permitam que acrescente outras com que ela introduz este “nosso” O Meu Livro de Cozinha:
“O apelo da “casa-mãe” continua grande, mesmo depois de ter saído de Macau há 41 anos!
Cozinhar para a família e os amigos, faz-me reviver os mimos da mãe e das tias, bem como os sabores macaenses que me transmitiram.
Também tento recriar os petiscos dos chá-gordos do Clube de Macau, tão bem conseguidos pela mão sábia e saudosa da “Dona Anita”!
Conterrâneos espalhados pelo mundo, farão o mesmo sempre que recriam comida macaense em suas casas.
Integram a nossa herança cultural, “as receitas de família”, aquilo de que aprendemos a gostar “em casa dos Pais”.
Tenhamos, também, em consideração, as palavras que aqui são deixadas pela Maria João nesta introdução.
Nesta “casa-mãe” que mais não é do que o distante Macau;
Nestes “mimos de mães e tias” – memórias de uma infância onde assentam as suas (nossas) referências culturais, que se partilham com “família e amigos”;
Neste “chá-gordo” banquete por excelência, símbolo do convívio, da festa macaense, referência recorrente nas memórias de todos os macaenses, levado à prática no encontro das comunidades nessas Casas de Macau espalhadas pelo Mundo;
Nesta consciência de que todas as comunidades da diáspora, reforçam a sua identidade “sempre que recriam comida macaense em suas casas”;
E, finalmente a referência às “receitas de família”, “que aprendemos a gostar na casa dos pais” – reforçando bem o berço de onde tudo nasce, corolário desta experiência interior que leva à assumpção de uma identidade.
É, pois indiscutível esta relação íntima entre a comida macaense e o ser macaense.
E que dizer do recurso ao patoá, que tanta vez encontrei na minha investigação, quando se quer nomear a “nossa” cozinha, num contexto diversificado? Afinal confeccionar comida macaense é, para muitos macaenses, fazer cozinhaçám.
Tal como ainda hoje em Malaca, cuzinhia, só por si, significa a cozinha malaqueira dos luso-descendentes, por se nomear em pápia cristang.
Cozinha e língua de braço dado como vectores que se completam e se fundem como marca de autonomia identitária e de diferenciação cultural.
São estas palavras que descodificam o verdadeiro sentido e significado da cozinha macaense nos tempos de hoje, onde as mudanças económicas, políticas e sociais, deram outro sentido à vida das comunidades.
Quer as espalhadas pelo mundo, cada qual em seu contexto, mas com o referencial da saudade, e vontade bem vincada da pertença. Da diferença.
Quer a comunidade de Macau, sujeita a alterações conjunturais, que a obrigam a marcar, também, a diferença fixando-se nas memórias, mais do que nas práticas, que lhes são comuns.
É aqui que está a força do referencial cozinha macaense – concretamente comida macaense – e a importância da sua conservação.
Por isso quero chamar a vossa atenção para o facto de quanto a cozinha tem para nos dizer para além da dádiva dos prazeres, da sua degustação, ou do seu consumo puramente biológico.
Comer é um acto pleno de significados sociais, é um acto simbólico, traduz o reconhecimento inter pares. Neste acto se junta memória, sociabilidade e ritualidade.
Mas é preciso ter presente que as cozinhas, os hábitos alimentares, as línguas, as relações, como todos os outros vectores sociais, não são, felizmente, estáticos.
Embora reconhecida como uma cozinha de origens…
… a cozinha macaense não pode fugir a esta regra. Isso é inevitável. Faz parte da dinâmica universal. Ou será que aquilo que se conhece hoje como cozinha macaense, referenciada em diversos receituários, sempre foi assim?
Quantos pratos são referenciados em textos do século passado e são já desconhecidos da maioria dos macaenses?
E os novos produtos? As novas formas de confecção? E os novos receituários que vão surgindo?
Tal como aconteceu com todas as outras cozinhas que foram transformadas pela introdução de novos produtos, novos modos de confecção, diferentes técnicas culinárias… e segredos do gosto de cada um…
E não nos podemos esquecer que esta cozinha é ela própria fruto de uma miscigenação, produto de misturas, de adaptações, de compromissos culturais.
Por isso, é bom termos em consideração que, se por um lado, devemos lutar pela preservação do receituário antigo, como história que é, e nos pertence, não devemos, por outro,  ter atitudes fundamentalistas em relação ao novo, que será - assim o esperamos - uma memória macaense nas gerações futuras.
Preservação, evolução, transformação, não podem ser opostas mas complementares. 
Se interrogada a cozinha macaense, chamemos-lhe “clássica”, ela vai dar-nos respostas sobre as suas origens étnicas, culturais, sociais, e isso ajudar-nos-á a compreender melhor o que foi Macau e como se projecta nas gerações mais recentes.
Mas não menos importante, será interrogarmos a nova cozinha macaense que, para além das origens indo-portuguesas, mescladas pelas rotas do sudeste asiático, e com uma China tão perto, terá hoje, certamente, influências das partes do Mundo por onde os macaenses se espalharam.
As suas respostas ajudar-nos-ão a compreender melhor o novo macaense.
E os referenciais das novas gerações.
O “Meu Livro de Cozinha” da Maria João é já uma mostra de outras influências. Marca uma ponte entre o chamado “tradicional” – independentemente do toque pessoal – para uma transformação culinária, onde novos ingredientes e técnicas poderão ser encontrados, acrescentando, a partir de agora o receituário macaense.
Um livro de cozinha macaense – desde que honesto – nunca poderá ser tido como mais um livro de cozinha macaense, mas, sim, como mais um livro a juntar, a todos os outros que conservam memórias, construtoras de uma identidade.
Tornar público aquilo que é privado, que é um segredo nosso, é um acto de coragem. De grande coragem.
E, estas receitas são, na sua maioria, receitas pessoais. Receitas que, até hoje, apenas, familiares e amigos da Maria João tiveram o prazer de saborear.
A partir de agora estas receitas são de quem as quiser experimentar, e, se falharem não será por culpa da autora, mas sim por falta de arte e engenho dos praticantes.
E isto, porque todas estas receitas, todas elas -  atesta a autora, quem fotografou os pratos, e os eleitos para as degustações destes manjares – já foram verdadeiramente experimentadas na alquimia culinária, e sujeitas à rigidez dos gostos e à emulação do prazer.
Maria João pertence ao grupo daquelas e daqueles - mais daquelas do que daqueles -  que se têm dedicado a recolher e a compilar para as gerações futuras, senão para as presentes, o vasto receituário da cozinha macaense, como, estão, entre outros,  António Vicente Lopes, Cecília Jorge, Graça Pacheco Jorge, João António Ferreira Lamas, Maria Celestina de Mello e Sena, e Maria Margarida Gomes, que publicaram, passando o testemunho à comunidade de algo que faz parte integrante da sua maneira de estar no mundo.
O espírito da velhinha que levava consigo para o além os segredos da sua cozinha, não os passando nem sequer à família, ou fazendo-o, o fazia com intencionais falhas e omissões, que tornavam as suas receitas ineficazes, certamente na esperança de se manter na eternidade pela recordação dos seus belos acepipes, agora sem obreiros à altura, são coisas que se querem de outros tempos, dos tempos em que parecia nada mudar.
 Os tempos de hoje são outros e correm tão rapidamente que urge preservar tudo aquilo que estruturou, e estrutura, o sentido de pertença de uma comunidade espalhada pelas sete partidas do Mundo sujeita, naturalmente, à transculturação e aculturação, que já aí está evidente nas novas gerações.
Quando Adé dizia a Maria João: “Tu e eu vamos ficar ligados à história”, ele sabia não serem as suas palavras uma figura de estilo mas sim, uma mensagem para ser meditada pela verdade que encerrava.
Ele ficou para a história como o guardião, quantas vezes incompreendido, de um patoá já, então, esquecido e tantas e tantas vezes visto com desprezo pelas mais variadas razões – muitas delas sem qualquer razão, nem sentido, nem sequer qualquer justificação histórica. E, afinal o seu desaparecimento – quase por milagre – acabou por vir trazer para o seio da comunidade pelo esforço de alguns o patoá que hoje se quer ver reconhecido.
A Maria João vai ficar na história, também!
Como ficarão todos aqueles que das mais variadas formas, modos e saberes,  deixam testemunho da riqueza que se gerou nesta terra de Macau, como resultado, afinal, da globalização, que séculos antes da que tanto se fala hoje, produziu história, cultura, miscigenação exemplar, amor e paz.
Assim a globalização dos tempos modernos tivesse essas virtualidades.
O meu obrigado a todos.
Mais uma vez os meus parabéns à Maria João.
A palavra é agora da autora.

Livro de culinária de Maria João